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quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Areia Movediça: Pais Fracos e Inúteis


"Areia Movediça", a série sueca transmitida pela Netflix, se aprofunda em temas complexos, mergulhando nas profundezas turvas de um massacre escolar e suas causas subjacentes. A trama centra-se em Maja Norberg, uma adolescente perdida em um relacionamento tóxico, cuja vida é virada do avesso após uma tragédia em sua escola em Estocolmo.

A narrativa se entrelaça entre passado e presente, desvendando os eventos que conduzem ao massacre e o subsequente julgamento de Maja. Central nessa trama está o relacionamento abusivo entre Maja e Sebastian. O que começa como um namoro adolescente rapidamente escala para uma série de eventos trágicos, culminando no fatídico dia do massacre.

Ao analisar a série, não posso deixar de notar a influência dominante dos pais na trajetória dos jovens protagonistas. A figura do pai de Sebastian é crucial: um abusador que não apenas causa dano emocional direto ao filho, mas também o aliena da mãe. A comparação constante com um irmão "bem-sucedido" apenas agrava seu trauma, contribuindo para a fragilidade emocional de Sebastian.

Do outro lado, temos os pais de Maja, figuras de negligência. Sua incapacidade de estabelecer autoridade ou mesmo se envolver verdadeiramente na vida da filha é igualmente prejudicial. A pergunta de Maja à mãe, "Por que você nunca me pergunta nada importante?", é um reflexo dessa desconexão parental. O relacionamento entre filha e pais é superficial.

Esse abandono de ambos os pais expõe Sebastian e Maja a um ambiente de drogas, álcool, violência e liberdade física que eles não conseguem administrar. Em um momento são filhos e dependentes, no outro vivem como casados e estreitamente comprometidos. Além disso, eles são influenciadores de outros jovens e põe toda uma comunidade a mercê de um estilo de vida sem limites. 

A série, habilmente, não se limita a retratar apenas as consequências dessas relações familiares, mas também explora o impacto emocional e psicológico nas vidas dos jovens. Maja, em sua jornada, luta não apenas com o caos ao seu redor, mas também com o peso de tentar "salvar" Sebastian de suas próprias sombras. Essa dinâmica de salvadora, frequentemente romantizada, é desmontada na série, mostrando as repercussões reais e muitas vezes trágicas dessa responsabilidade autoimposta. Que poderia ser facilmente evitada se os pais fossem presentes.

"Areia Movediça" não é apenas uma série sobre um massacre escolar; é uma exploração crítica da juventude, dos relacionamentos familiares e dos limites emocionais. Levanta questões vitais sobre a responsabilidade parental e o impacto da ausência ou abuso parental no desenvolvimento emocional dos jovens. A série convida o espectador a refletir não apenas sobre quem é culpado, mas também sobre as muitas maneiras pelas quais os pais e a sociedade falham com seus jovens.

"Areia Movediça" é uma série impactante e necessária. Ela ilumina as complexidades e os desafios enfrentados pela nova geração, ao mesmo tempo que destaca a importância vital de uma presença parental saudável e responsável na vida dos jovens. Ao nos apresentar essas realidades cruas, ela nos oferece uma chance de entender melhor, e talvez até de mudar, a maneira como guiamos e influenciamos as gerações futuras.


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Pais Ameaçadores


Nestes dias em que a violência tomou conta das telas de cinema, os jornais e a internet, não temos poucos lugares seguros, quietos e pacíficos para nos abrigar sem sermos tomados de assalto por cenas, sons e apelos violentos.

Um desses lugares seguros é o nosso lar. É onde todos deveríamos nos sentir bem, confortáveis e com estabilidade. Onde o diálogo tem contornos de oração. Onde os abraços são ternos e os olhares acolhedores. Onde todas as opiniões e as expressões são recebidas e discutidas com amabilidade. É um lugar de refúgio.

O pai ameaçador subverte essa  lógica. Ele consegue transformar o mundo em um lugar inóspito, pois não há para onde fugir.

A principal característica desse tipo de genitor é impaciência em tempos de crise. Qualquer desvio nos rumos normais de seu dia transforma seu tom de voz, sua expressão corporal e seu olhar em diferentes tons de raiva. Ele deixa claro, fisicamente que se as coisas não estão bem, e que ficarão piores.

Em dias e situações normais seu humor é tranqüilo e pode ser inclusive ser caracterizado por ser uma pessoa calma. Mas então qual é o diferencial desse pai ou mãe? A ameaça.

As situações ou expressões mais usadas são: se você não se comportar vou te bater! Ou, se você não se comportar vou te mandar embora de casa! Ou ainda, você deve se comportar senão... Ou seja, toda ação fora do padrão tem uma conseqüência extrema para a criança ou jovem. Não faz diferença para a criança a ameaça física ou não. A violência verbal também é nociva e não deixa marcas visíveis que podem ser tratadas imediatamente.

O resultado das ameaças pode enquadrar a criança em um comportamento esperado, mas é externo, apenas para satisfazer os pais. Internamente, ela não tem consciência da necessidade moral ou mesmo intelectual para manter um determinado comportamento. O medo é a motivação de suas ações. Sem o medo tudo pode ser feito.

Além disso, a comunicação entre pais e filhos fica prejudicada. Os filhos não se sentem confortáveis e tem receio de repartir suas experiências, erros e acertos com quem continuamente os ameaça nos momentos de falha ou vacilo.

Outro efeito colateral é que o jovem passa a querer se livrar dessa situação. A falta de comunicação, afeto e o medo instigam o jovem a sair de casa. Quando a situação é desesperadora, a saída pode ser um casamento, um emprego, ou mesmo fuga clandestina de casa.

A saída disso é criar um ambiente seguro para que a criança ou jovem tenham espaço para se manifestar, compartilhar suas idéias sem medo de ameaças, sejam elas físicas ou verbais. O tom de voz dos participantes da comunicação não deve se alterar. Os olhares mesmo se houver reprovação de uma idéia e / ou comportamento devem ser de aceitação. O confronto deve se manter no campo das idéias. Porque não fazemos assim? Por que manter um alto nível de comunicação e discussão dá trabalho.

Pais preguiçosos querem chegar a casa e ver TV ou ir para internet.

As punições devem ser aplicadas sem ameaça prévia. Ou seja, se saiu da linha o pai deve avaliar a melhor punição sem afetação, com calma e com planejamento. A punição não deve ser uma frase impensada resultado de um momento de raiva. A criança ou adolescente carrega um fardo pesado pelo tempo viver perto dos pais. O medo constante de falhar de não se encaixar.

Além disso, as punições ou frases dos pais não devem ser de ruptura de relacionamento, como mandar o jovem embora, nunca mais falar com ele ou ameaça de perda de estima ou amor. Cessar a comunicação e o relacionamento é o fracasso total das relações familiares. A comunicação e o relacionamento devem ser mantidos, cuidados e tratados com esforço e carinho.

Dá trabalho. Mas o resultado são filhos seguros de si, amáveis, respeitosos, educados e acima de tudo que estimam e amam seus pais.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pai Ausente



Pais ausentes dificultam o desenvolvimento normal de uma criança.

Essa afirmação é pautada em estudos freqüentes realizados em diversos centros de pesquisa e universidades, em todos os níveis sociais, econômicos e religiosos. Foram feitas pesquisas em todos os continentes e consideradas as condições culturais de cada povo.

É como se a atuação do pai fornecesse partes de um lego que monta a personalidade e o caráter de um individuo. A sua ausência seja de tempo ou de falta de relacionamento parece dificultar a montagem desse lego. As conseqüências para o novo ser são terríveis e criam barreiras intransponíveis se não houver auxilio.

Filhos de pais ausentes têm maior envolvimento com delinquência juvenil, associado a abuso de drogas, vadiagem, roubo e bebida. Esses aspectos são maximizados se o pai é ausente na vida escolar do filho, a partir da sexta e sétimas séries.

A distância do entre o pai e o filho aumenta a possibilidade de uso de maconha e a percepção do filho em ser apanhado em delitos maiores. Ou seja, ter um pai por perto que tenha influencia positiva impede o engajamento do jovem em múltiplos delitos que seriam seus primeiros problemas com a sociedade.

O pai ausente – medido pela freqüência de contato e qualidade do relacionamento – é relacionado com filhos com maior disposição a sintomas de dissimulação, comportamento anti-social, depressão, tristeza, e mentira (Flouri & Buchanan, 2002a; King & Sobolewski, 2006; Mosley & Thompson, 1995).

Pais ausentes geram mais filhos com problemas de conduta, bullying, hiperatividade, vitimização, dificuldade de se socializar na vida escolar e problemas associados a notas. Esses filhos têm 80% mais chance de ir para a prisão. Além disso, duas vezes mais chance de atividade sexual precoce e sete vezes mais chance de gravidez precoce.

A vida escolar dessas crianças é pautada por problemas de atenção, desobediência, repetência e tem menor chance de chegar a estudos superiores. Além disso, possuem mais chance de cometerem crimes na escola como possuir, usar ou distribuir drogas ou álcool, usar armas de fogo, cometer violência contra professores, administradores ou outros estudantes.

Os pais ausentes são psicologicamente imaturos, menos satisfeitos com suas próprias vidas, são psicologicamente aflitos, não se compreendem e não compreendem os outros. Além disso, não se envolvem com a comunidade ou serviços sociais. Tendem a ter menos satisfação no trabalho e relacionamentos profissionais.

Existem evidências que sugerem que pais envolvidos com os filhos tem estabilidade e satisfação marital na meia-idade. São mais felizes mesmo 20 anos depois do nascimento do primeiro filho.

Filhos que tem pais envolvidos se tornam bons maridos, trabalhadores e excelentes cidadãos na meia idade (Snarey, 1993;Townsend, 2002).

Ser um pai ausente tem conseqüências. A sua proximidade com seus filhos pode determinar destinos na prisão, nas drogas ou pessoas extremamente felizes.

Uma mulher deve consistentemente observar o pai de um pretendente, pois pode ter uma visão de como será sua possível vida de casada e de como seus filhos serão tratados.